Tribulus, ashwagandha, zinco e outros “boosters” prometem mais energia, libido e músculos. Mas será que entregam?
Mais testosterona, força, massa muscular. Mais disposição e desempenho sexual.
Essas promessas aparecem em anúncios, em vídeos de influenciadores e em embalagens com palavras como “natural”, “potente” e “test booster”. Muitas vezes, o produto reúne vitaminas, minerais e extratos vegetais e é apresentado como uma alternativa simples para aumentar a testosterona.
A ideia é atraente: bastam algumas cápsulas por dia para recuperar energia, libido e confiança. A ciência, porém, não confirma a maior parte dessas promessas.
Uma revisão sistemática avaliou 27 substâncias anunciadas como estimuladoras de testosterona e concluiu que a maioria não elevou de maneira consistente a testosterona total. Alguns ingredientes mostraram resultados possíveis em estudos específicos, o que está longe de comprovar um efeito relevante para todos os homens.
Na prática, corrigir uma deficiência nutricional pode ajudar o organismo a voltar ao funcionamento adequado. Já fazer a testosterona ultrapassar naturalmente seus níveis habituais é outra história.
O que são os “boosters” de testosterona?
Boosters são suplementos vendidos com a promessa de estimular a produção natural de testosterona. Em geral, combinam ingredientes como:
- Tribulus terrestris
- ashwagandha
- feno-grego
- maca peruana
- Tongkat Ali
- ácido D-aspártico
- zinco
- magnésio
- vitamina D
- boro
- ginseng
- ZMA
Esses produtos não se confundem com a reposição de testosterona, que utiliza o próprio hormônio e é um tratamento médico destinado a situações específicas. Os boosters, por sua vez, tentam influenciar a produção hormonal de forma indireta, por meio de nutrientes ou compostos vegetais.
O problema é que muitas fórmulas se apoiam em estudos pequenos, em resultados obtidos apenas em animais ou em alegações que nunca foram confirmadas por pesquisas clínicas de boa qualidade.
Por que esses suplementos parecem funcionar para algumas pessoas?
Existem algumas explicações possíveis.
Correção de uma deficiência. Um homem com alimentação inadequada e carência de determinado nutriente pode se sentir melhor ao iniciar uma suplementação apropriada. Nesse caso, o benefício vem da correção do problema, e não de um efeito hormonal extraordinário.
Efeito placebo. Quando o homem acredita que o produto vai aumentar sua energia e sua libido, ele pode notar mudanças subjetivas, mesmo sem alteração significativa da testosterona.
Mudança simultânea de hábitos. Quem começa a tomar um suplemento costuma, ao mesmo tempo, treinar mais, dormir melhor ou cuidar da alimentação. Depois, atribui toda a melhora às cápsulas.
Ingredientes diferentes dos declarados. Alguns produtos contêm substâncias que não constam no rótulo. Por isso, um efeito forte e rápido demais nem sempre é um bom sinal.
O que a ciência diz sobre os ingredientes mais populares?
Tribulus terrestris
Entre os suplementos mais conhecidos para “aumentar a testosterona”, o Tribulus tem fama maior do que as evidências que o sustentam. Estudos com homens saudáveis e atletas não demonstram aumento consistente do hormônio. Há quem relate melhora da libido, mas desejo sexual e concentração hormonal são coisas distintas. Por isso, o Tribulus não deve ser apresentado como tratamento para deficiência de testosterona.
Maca peruana
Associada a libido, fertilidade e vitalidade, a maca despertou interesse em pesquisas que sugerem possível melhora do desejo sexual em determinados grupos. Isso não significa, porém, que ela aumente a testosterona. Um homem pode perceber mudanças na disposição ou no desejo sem qualquer alteração hormonal relevante.
Ácido D-aspártico
Esse composto ganhou popularidade depois que estudos iniciais sugeriram estímulo à produção hormonal. Pesquisas posteriores, sobretudo com homens treinados, trouxeram resultados inconsistentes: em alguns casos não houve elevação da testosterona, e em outros doses elevadas não geraram o benefício esperado. Diante disso, as evidências atuais não sustentam seu uso como solução confiável para testosterona baixa.
Ashwagandha
Frequentemente divulgada para reduzir o estresse, melhorar o treinamento e elevar a testosterona, a ashwagandha é um extrato vegetal com resultados ainda limitados. Estudos pequenos encontraram aumento hormonal em grupos específicos, como homens submetidos a treinamento de força ou com determinadas alterações reprodutivas. Ainda assim, não é possível concluir que ela eleve de forma importante a testosterona de qualquer homem.
Além disso, extratos, concentrações e qualidade variam de um produto para outro. Assim, o que se observou em uma fórmula estudada não pode ser aplicado automaticamente a todas as cápsulas do mercado.
Feno-grego
Presente em diversas fórmulas para libido e testosterona, o feno-grego (ou fenugreek) teve resultados positivos em alguns ensaios, enquanto outros não encontraram mudanças relevantes. As fórmulas estudadas variam bastante, e parte das pesquisas usou extratos específicos.
Apesar de considerado promissor por certas revisões, ele ainda não pode ser tratado como alternativa comprovada ao diagnóstico e ao tratamento da deficiência hormonal.
Tongkat Ali
Também chamado de Eurycoma longifolia, o Tongkat Ali costuma ser anunciado como estimulante da testosterona e da libido. Há estudos que apontam possível efeito em determinados grupos, principalmente em homens com níveis reduzidos ou submetidos a estresse. Contudo, as limitações são importantes: poucas pesquisas, populações específicas, diferentes tipos de extrato e dúvidas sobre a padronização e a segurança dos produtos.
Vale lembrar que “possivelmente eficaz” não significa “comprovado para todos”.
Zinco
Mineral envolvido em diversos processos do organismo, inclusive na função reprodutiva, o zinco pode ajudar a normalizar funções afetadas quando há deficiência verdadeira e ela é corrigida.
No entanto, isso não quer dizer que doses cada vez maiores elevem continuamente a testosterona. Em homens que já têm níveis adequados, o benefício hormonal não está bem demonstrado.
Aliás, o excesso pode trazer problemas. Segundo o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, o consumo elevado e prolongado pode prejudicar a absorção de cobre, afetar a imunidade e provocar sintomas gastrointestinais. Somar multivitamínico, ZMA e outros suplementos com zinco sem calcular a dose total pode resultar em um consumo desnecessariamente alto.
Vitamina D
Em estudos observacionais, níveis baixos de vitamina D aparecem associados a testosterona reduzida. Contudo, associação não prova que a deficiência seja a causa.
Os ensaios clínicos com suplementação mostram resultados variados. Corrigir a deficiência de vitamina D é importante para a saúde óssea e geral, mas não há garantia de que isso aumente significativamente a testosterona.
Na hora de definir a dose, é preciso considerar exames, alimentação, exposição solar, idade e condições clínicas. Doses muito elevadas, usadas sem acompanhamento, podem causar toxicidade.
Magnésio e ZMA
Importante para diversas funções musculares e metabólicas, o magnésio pode ser suplementado quando a ingestão é insuficiente ou há deficiência.
Já o ZMA, combinação de zinco, magnésio e vitamina B6, costuma ser promovido como estimulador hormonal. Entretanto, a evidência de aumento relevante da testosterona em homens com níveis nutricionais adequados é fraca.
Creatina
Com boa evidência para melhorar a força e o desempenho em exercícios de alta intensidade, a creatina não se transforma por isso em booster de testosterona: seus benefícios esportivos não dependem de elevar a concentração do hormônio. Ela pode ser útil para determinados objetivos, mas não deve ser vendida como tratamento para testosterona baixa.
Então nenhum suplemento funciona?
Tudo depende do que se entende por “funcionar”.
Se há uma deficiência comprovada de vitamina D, zinco ou outro nutriente, a suplementação orientada pode corrigi-la e contribuir para o funcionamento normal do organismo.
Em contrapartida, num homem saudável, bem alimentado e sem carências nutricionais, nenhum suplemento de venda livre comprovadamente produz um aumento grande, previsível e sustentado da testosterona.
Alguns extratos vegetais mostram resultados preliminares ou efeitos possivelmente modestos. Faltam, porém, estudos maiores e independentes que esclareçam:
- quais homens realmente se beneficiam
- qual seria a dose adequada
- por quanto tempo o produto poderia ser utilizado
- se o efeito se mantém
- quais são os riscos no longo prazo
- se o aumento laboratorial se traduz em melhora clínica relevante
Além disso, uma pequena mudança no exame não garante mais libido, mais músculos ou melhor ereção.
“Natural” significa seguro?
Não.
Plantas e nutrientes têm atividade biológica, podem causar efeitos adversos e interagir com medicamentos. A segurança depende ainda da dose, da procedência, da padronização e das condições de saúde de quem usa o produto.
Nesse sentido, a Anvisa alerta contra suplementos que prometem efeitos milagrosos, tratamento de doenças, melhora sexual ou alterações expressivas no funcionamento do organismo. Alguns sinais de alerta são:
- promessa de resultado rápido e garantido
- “antes e depois” sem comprovação
- uso da expressão “aprovado pela Anvisa”
- venda apenas por canais sem identificação da empresa
- rótulo sem composição clara
- doses não informadas
- mistura proprietária que esconde as quantidades
- afirmação de que o produto substitui tratamento médico
- alegação de que não há efeitos colaterais
- recomendação para dispensar exames
Para conferir, a própria Anvisa mantém uma consulta de produtos irregulares, que inclui itens com ingredientes não autorizados, problemas de qualidade ou propaganda enganosa.
O risco de substâncias escondidas

Produtos voltados à musculação, à potência sexual e ao aumento hormonal merecem atenção especial. Autoridades sanitárias já identificaram suplementos com esteroides, substâncias semelhantes a hormônios ou outros ingredientes não declarados. Nesses casos, o consumidor acredita tomar um produto natural, mas pode estar usando, sem saber, uma substância farmacológica.
Os riscos podem incluir:
- lesão no fígado
- alterações no colesterol
- pressão alta
- mudanças de humor
- redução da produção natural de testosterona
- diminuição da fertilidade
- atrofia testicular
- aumento das mamas
- eventos cardiovasculares
Se um suplemento causa ganho muscular, aumento de força ou mudanças corporais muito rápidas, o ideal é interromper a automedicação e procurar avaliação médica.
Leia também: https://www.blog.institutohomem.com.br/2026/08/12/por-que-homens-evitam-ir-ao-medico/
Atletas precisam ter cuidado redobrado
Mesmo quando o rótulo parece normal, um suplemento pode estar contaminado com substâncias proibidas. DHEA, pró-hormônios, SARMs e diversos agentes anabólicos podem gerar resultado positivo em controles antidoping. E o atleta responde pelo que é encontrado em seu organismo, ainda que o ingrediente não apareça claramente na embalagem.
Por isso, quem compete deve verificar as regras da modalidade e priorizar produtos com certificação independente. Nenhuma certificação elimina totalmente o risco, mas ela ajuda a reduzi-lo.
Como saber se a testosterona realmente está baixa?
Cansaço, queda de libido, dificuldade de ereção e perda de força não confirmam deficiência hormonal. Esses sintomas também podem estar ligados a:
- privação de sono
- apneia do sono
- estresse
- depressão ou ansiedade
- excesso de treinamento
- restrição calórica
- obesidade
- diabetes
- alterações da tireoide
- anemia
- uso de medicamentos
- consumo excessivo de álcool
- problemas no relacionamento
Para diagnosticar a deficiência de testosterona, são necessários sintomas compatíveis e níveis consistentemente reduzidos. A dosagem deve ser feita pela manhã e, se estiver alterada, repetida em outra ocasião. Conforme o caso, o médico também pode avaliar testosterona livre, SHBG, LH, FSH, prolactina e outros exames.
Portanto, tomar um booster antes de investigar pode atrasar a identificação da causa real.
O que realmente ajuda a manter níveis hormonais saudáveis?
Não existe fórmula única, mas algumas medidas têm impacto mais consistente sobre a saúde hormonal:
- dormir o suficiente
- investigar e tratar a apneia do sono
- praticar atividade física regularmente
- evitar o excesso de treinamento
- manter uma alimentação adequada
- evitar restrições calóricas extremas
- reduzir o excesso de gordura corporal, quando indicado
- controlar diabetes e outras doenças crônicas
- moderar o consumo de álcool
- não usar anabolizantes
- revisar medicamentos com orientação médica
- corrigir deficiências nutricionais comprovadas
Vale ressaltar que essas estratégias não funcionam como atalhos para elevar a testosterona acima do normal. O papel delas é remover fatores que podem estar prejudicando a produção hormonal.
Reposição de testosterona é diferente de suplementação
A reposição hormonal não é um booster nem um suplemento nutricional. Trata-se de um tratamento médico com testosterona, que exige indicação, acompanhamento e monitoramento.
Ela pode ser considerada quando o homem tem sintomas compatíveis e deficiência hormonal confirmada, e não deve ser iniciada apenas para ganhar disposição, melhorar a estética ou compensar hábitos inadequados.
Além disso, o tratamento pode reduzir a produção de espermatozoides. Por essa razão, homens que desejam preservar a fertilidade precisam discutir esse objetivo antes de iniciar qualquer terapia hormonal.
Perguntas frequentes
Tribulus aumenta a testosterona?
Os estudos disponíveis não demonstram aumento consistente da testosterona em homens saudáveis ou atletas. Relatos de melhora da libido não comprovam elevação hormonal.
Ashwagandha funciona?
Alguns estudos pequenos sugerem possíveis efeitos em determinados grupos, mas ainda não há evidência suficiente para considerá-la um tratamento confiável para testosterona baixa.
Zinco aumenta a testosterona?
Ele pode contribuir para a normalização hormonal quando existe deficiência de zinco. Doses elevadas em quem não tem deficiência não garantem benefício e podem causar efeitos adversos.
Vitamina D aumenta a testosterona?
Corrigir a deficiência é importante para a saúde, mas os estudos não demonstram que a suplementação eleve de forma consistente a testosterona de todos os homens.
Booster melhora a ereção?
Não há garantia. A ereção depende de circulação, sistema nervoso, hormônios e fatores emocionais, e por isso a dificuldade persistente deve ser investigada, pois pode indicar uma condição clínica.
Posso combinar vários suplementos?
A combinação aumenta o risco de doses excessivas, interações e exposição a ingredientes duplicados. Antes de montar uma “pilha” de suplementos, procure orientação profissional.
Existe algum suplemento que substitua a reposição hormonal?
Não. Suplementos nutricionais não substituem o tratamento indicado para deficiência hormonal confirmada.
Conclusão: desconfie das promessas grandes demais
A maioria dos suplementos vendidos como boosters não aumenta a testosterona de maneira relevante e consistente. Vitaminas e minerais podem ser úteis quando há deficiência, e alguns extratos vegetais mostram resultados iniciais, mas nenhum deles oferece a previsibilidade prometida pelas propagandas.
Antes de investir em cápsulas, portanto, vale entender por que surgiram sintomas como cansaço, queda de libido, dificuldade de ereção ou perda de força. A causa pode estar no sono, na alimentação, no peso, em uma doença, em medicamentos ou na saúde emocional, e nenhum suplemento milagroso corrige todos esses fatores sozinho.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica. Não inicie suplementos ou tratamentos hormonais sem orientação profissional.
